No centro da vila de um lugar esquecido, havia um poço antigo, lacrado com uma tampa de ferro que ninguém se atrevia a abrir. Diziam que ali dentro morava o que restou de um deus adormecido, faminto desde que os homens pararam de adorá-lo.
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Aquela mulher, franzina e desesperada, não acreditava em deuses, apenas na fome. Seus filhos não comiam há dias, e ela decidiu arriscar. Ao remover a tampa pesada com inscrições disformes, esperava encontrar água, mas tudo que viu foi escuridão. E então, a voz veio como um afago à sua mente cansada.
Era doce e gentil, oferecendo promessas em troca de algo pequeno: um dedo, um dente, um fio de cabelo. Temerosa, deixou cair uma gota de sangue de seu dedo cortado. A voz riu satisfeita, e do poço jorrou carne fresca.
Nas semanas seguintes, aquela pobre mulher voltou, oferecendo cada vez mais: uma unha, um pedaço de pele, até o lóbulo de sua orelha. Cada sacrifício era recompensado com banquetes que alimentavam a vila inteira. Mas o poço nunca se saciava.
Quando a carne acabou, ele pediu o filho mais novo. Entre lágrimas, a mulher cavou a cova do filho natimorto. A vila festejou naquela noite, inconsciente da verdade: o poço já não estava mais no centro. Ele estava embaixo de cada casa, sussurrando novas barganhas.
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